quarta-feira, 22 de março de 2017

CONTANDO NOSSO DINHEIRO - SHABAT SHALOM M@IL - PARASHIÓT VAYAKEL E PEKUDEI 5777

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CONTANDO NOSSO DINHEIRO - PARASHIÓT VAYAKEL E PEKUDEI 5777 (24 de março de 2017)

"Rafael, nos seus quase oito anos, já tinha adquirido um hábito nada saudável. Tudo para ele se resumia em dinheiro. Queria saber o preço de tudo o que via e, se não custasse grande coisa, para ele não tinha valor algum. Rafael não entendia que há muitas coisas que o dinheiro não compra. E, dentre estas coisas, algumas são as melhores da vida.
 
Certo dia, no café da manhã, Rafael colocou cuidadosamente sobre o prato da sua mãe um papelzinho dobrado. Quando a mãe chegou, ela viu o bilhete, abriu e leu: "Mamãe, você me deve: Três reais por levar recados. Dois reais por tirar o lixo. Dois reais por varrer o chão. Dois reais por arrumar a cama. Total da dívida: Nove reais".
 
A mãe espantou-se em um primeiro momento. Depois sorriu, guardou o bilhetinho no bolso do avental e não disse nada. O garoto foi para a escola e retornou faminto. Correu para a mesa do almoço e viu, sobre o seu prato, o seu bilhetinho com nove reais em cima. Os seus olhinhos brilharam. Enfiou depressa o dinheiro no bolso e ficou imaginando o que compraria com aquele dinheiro. Foi então que ele percebeu que havia outro papel ao lado do seu prato, igualzinho ao seu e bem dobrado. Curioso, abriu e leu. Era um bilhete escrito pela sua mãe: "Meu querido filhinho, você me deve: Por cuidar da sua catapora e das suas gripes: nada. Pelas roupas, calçados e brinquedos: nada. Pelas três refeições diárias e pelo lindo quarto: nada. Total que você me deve: nada, pois tudo o que eu faço para você, eu faço por amor".
 
Rafael ficou sentado, lendo e relendo a sua conta. Não conseguia dizer nenhuma palavra. Depois se levantou, pegou os nove reais e os colocou na mão da sua mãe. A partir daquele dia, Rafael passou a ajudar sua mãe por amor."
 
Não é apenas com as crianças que isto ocorre. Infelizmente, pelo amor aos nossos bens e o desejo de sempre termos mais, nos desconectamos da nossa espiritualidade e nos tornamos pessoas mal agradecidas.

Nesta semana lemos duas Parashiót juntas, Vayakel (literalmente "E reuniu") e Pekudei (literalmente "Contas"). Apesar de a Torá ter dado detalhadas instruções sobre a construção do Mishkan (Templo Móvel) nas Parashiót anteriores (Terumá, Tetsavê e Ki Tissá), nas duas Parashiót desta semana a Torá repete os detalhes construtivos do Mishkan, porém desta vez não apenas como uma ordem de D'us, e sim como a efetiva execução.
 
A Parashá Pekudei começa com um detalhe interessante. Moshé prestou contas de todos os materiais que foram doados, como está escrito: "Estas são as contas do Mishkan, o Mishkan do Testemunho, que foram contadas sob o comando de Moshé" (Shemot 38:21). Apesar de ser uma pessoa acima de qualquer suspeita, Moshé achou que era importante para o povo a comprovação de que toda a doação havia sido efetivamente utilizada na construção do Mishkan. Não se tratavam de materiais simples e baratos, como tijolos e cimento, e sim materiais caros, como ouro, prata, pedras preciosas, tecidos e couros. Nada havia sido desviado para usos particulares.
 
O Midrash (parte da Torá Oral) conecta este versículo sobre a prestação de contas de Moshé com outro versículo, ensinado por Shlomo Hamelech (Rei Salomão): "Um homem de confiança terá muitas Brachót (bênçãos)" (Mishlei 28:20). Isto quer dizer que justamente pelo fato de uma pessoa ser confiável é que virá para ela uma abundância de Brachót. O Midrash diz que este versículo de Mishlei se refere a Moshé Rabeinu, que se tornou uma pessoa de integridade inigualável e, por isso, foi apontado como o tesoureiro responsável pela contabilidade de todas as doações feitas pelo povo para a construção do Mishkan. Para trazer um apoio de que o versículo de Mishlei se refere a Moshé, o Midrash traz outro versículo: "Não é assim Meu servo Moshé. Ele é confiável em toda a Minha casa" (Bamidbar 12:7). Mas qual é a conexão entre ser uma pessoa confiável e receber uma abundância de Brachót? E por que o versículo "Ele é confiável em toda a Minha casa" é utilizado para atestar a integridade financeira de Moshé, se o versículo se refere à singularidade da profecia de Moshé, única e inigualável, e não à sua honestidade? E por que Moshé era a única pessoa confiável para este cargo? Não havia outras pessoas honestas em sua geração?
 
Outro questionamento surge ao analisarmos um ensinamento do Talmud (Taanit 8b), que afirma que as Brachót somente repousam sobre as coisas que estão escondidas dos nossos olhos. A partir do momento que algo é contado, o seu potencial de Brachá se perde. Mas se este conceito do Talmud é verdadeiro, então por que a nossa Parashá começa justamente apresentando a contabilidade dos materiais doados para a construção do Mishkan? Se contar as coisas tira o seu potencial de Brachá, não é uma enorme contradição os materiais do Mishkan terem sido contados?
 
De acordo com o Zohar (parte mística da Torá), pelo fato desta contagem ter um propósito sagrado, então neste caso a contagem era permitida, como também ocorre, por exemplo, na contagem dos rebanhos para a retirada do "Maasser" (dízimo). Porém, como podemos entender este conceito do Talmud, de que algo deve ficar oculto dos nossos olhos para que receba Brachá, mas que isto não se aplica se a contagem é feita por motivos sagrados?
 
Explica o Rav Yohanan Zweig que a resposta está em outro interessante ensinamento do Talmud (Baba Metsia 21b). Quando uma pessoa encontra na rua um objeto perdido sem nenhum tipo de sinal que o identifique, mesmo assim a pessoa ainda não tem a permissão de pegar para si este objeto, a não ser que tenha certeza que já passou bastante tempo desde o momento da perda, o suficiente para que o dono do objeto já tenha sentido sua falta e já tenha desistido dele. Entretanto, o Talmud afirma que se o objeto encontrado for dinheiro e não houver no dinheiro nenhum sinal de identificação, então a pessoa pode imediatamente ficar com ele. Porém, como podemos ter a certeza de que a pessoa já percebeu que perdeu o dinheiro? Responde o Talmud que "a pessoa constantemente checa seus bolsos para se certificar que seu dinheiro ainda está lá". Isto quer dizer que, quando encontramos dinheiro sem sinal de identificação, sempre podemos ter a certeza de que a pessoa que perdeu já está ciente de sua perda e já desistiu de procurar seu dinheiro e, por isso, podemos ficar com o dinheiro.
 
O Talmud não está apenas nos ensinando uma Halachá (lei) em relação a objetos perdidos, mas também está nos ensinando algo incrível sobre a psicologia do ser humano. É inerente a qualquer ser humano a insegurança em relação às suas posses, algo que se manifesta através da necessidade que o ser humano tem de sentir o domínio sobre todas as suas propriedades. Ficar constantemente mexendo nos bolsos para checar se o dinheiro ainda está lá é um exemplo da necessidade que o ser humano tem de se sentir conectado às suas posses. Para atender esta necessidade de domínio, a pessoa fica constantemente contando o que tem, pois contar o que é seu traz ao ser humano um forte senso de domínio e posse. Algumas pessoas chegam ao absurdo de checar várias vezes no dia quanto dinheiro elas têm na conta ou na carteira, enquanto outros abrem o dia inteiro as notícias para saber o valor do dólar e das bolsas.
 
A palavra Brachá, que significa "Benção", vem da mesma raiz da palavra "Breichá", que significa "Reservatório, Fonte". As Brachót são uma conexão com a nossa Fonte de existência, isto é, D'us. Se uma planta está conectada à terra, que é sua fonte, então ela se desenvolve e floresce. D'us é a fonte de toda a vitalidade. Quando o ser humano conecta algo à sua Fonte, ele recebe Brachá. Por outro lado, quando um ser humano quer demonstrar sua dominação sobre certo objeto, ele está separando este objeto de sua Fonte e, portanto, a Brachá é perdida. É por isso que a Brachá somente repousa sobre os objetos que estão escondidos dos nossos olhos, isto é, que não foram contados pelo ser humano, pois a contagem é uma maneira de demonstrar sua dominação sobre o objeto.
 
Esta é a diferença entre alguém que conta para si mesmo, de uma maneira dominadora, e alguém que conta "Leshem Shamaim" (em nome de D'us). Quando a contagem é para cumprir uma Mitzvá, então o próprio ato de contar conecta o objeto a D'us. Mas não adianta apenas o ato ser voltado a cumprir a vontade de D'us, pois mesmo quando uma pessoa recolhe e conta doações feitas para uma Mitzvá, como ocorreu na construção do Mishkan, existe o perigo do responsável por esta função sentir uma dominação ou uma conexão mais forte com estes fundos coletados. É por isso que o responsável por coletar as doações do Mishkan precisava ser alguém espiritualmente elevado. Moshé estava muito conectado com D'us, o que é atestado pelo versículo no qual D'us afirma que o nível de profecia dele era algo único e inigualável. Moshé estava tão elevado que é considerado como se ele estivesse na "casa de D'us". Por isso Moshé era a pessoa mais adequada para ser o tesoureiro responsável por coletar e contar as doações que o povo judeu fez ao Mishkan, pois seus atos eram completamente puros e direcionavam todos os objetos doados diretamente para D'us, a Fonte de toda a Brachá.
 
Assim conseguimos entender a explicação do versículo "um homem de confiança terá muitas Brachót". Aquele que é honesto, que faz tudo "Leshem Shamaim", sem motivações pessoais, se torna uma pessoa completamente íntegra. Desta maneira, ele conecta todo o fruto dos seus esforços a D'us, a Fonte de toda a vitalidade, e pode florescer e crescer abundantemente, como uma planta conectada à terra que lhe dá os nutrientes necessários ao seu crescimento.
 
Desta explicação do Rav Yohanan Zweig fica um ensinamento muito importante e atual. Vivemos em uma sociedade completamente conectada aos valores materiais. O valor das pessoas é medido de acordo com a quantidade de bens que elas têm. Isto faz com que as pessoas se tornem conectadas aos bens materiais de uma maneira negativa, de uma forma dominadora, se desconectando da sua espiritualidade e da Fonte de vida, D'us. Para termos Brachá na vida, é preciso usar o mundo material de forma que ele seja canalizado para nossa espiritualidade. Quando colocamos no coração que tudo vem de D'us, quando somos honestos nos negócios, quando utilizamos o que temos para também ajudar os outros e quando valorizamos as pessoas pelos que ela são e não pelo que elas têm, certamente isto nos traz muitas Brachót na vida.

SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm

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ULTRAPASSANDO SEU POTENCIAL - PARASHÁ VAYECHI 5777 (13 de janeiro de 2017)

"Um fazendeiro possuía terras ao longo do litoral. Ele constantemente anunciava estar precisando de empregados, mas a maioria das pessoas estava pouco disposta a trabalhar em sua fazenda, pois temia as terríveis tempestades que varriam aquela região, fazendo estragos nas construções e plantações. Procurando por novos empregados, o fazendeiro recebeu muitas recusas. Finalmente, um homem baixo e magro, de meia-idade, se mostrou interessado.
 
- Você é um bom lavrador? - perguntou o fazendeiro, desconfiado.
 
- Bem, eu posso dormir enquanto os ventos sopram - respondeu o pequeno homem.
 
Embora confuso com a resposta, o fazendeiro, desesperado por ajuda, o empregou. O pequeno homem trabalhou bem, mantendo-se ocupado do alvorecer até o anoitecer. O fazendeiro estava muito satisfeito com o trabalho de seu novo funcionário. Então, certa noite, um vento ruidoso veio anunciando uma forte tempestade que se aproximava. O fazendeiro pulou da cama, agarrou um lampião e correu até o alojamento do empregado. Sacudiu o pequeno homem e gritou:
 
- Levante rápido! Uma tempestade está chegando! Amarre as coisas antes que tudo seja arrastado!
 
O pequeno homem virou-se na cama e disse tranquilamente:
 
- Não, senhor. Eu lhe falei que posso dormir enquanto os ventos sopram.
 
Dizendo isso, deitou-se para o outro lado e voltou a dormir. Enfurecido pela resposta descarada, o fazendeiro quis despedi-lo imediatamente, mas se apressou em sair para preparar tudo antes da tempestade. Trataria depois daquele empregado preguiçoso. Porém, para seu assombro, ele descobriu que todos os montes de feno já tinham sido cobertos com lonas firmemente presas ao solo. As vacas estavam bem protegidas no celeiro, os frangos estavam bem guardados nos viveiros, as portas estavam muito bem travadas e as janelas estavam bem fechadas e seguras. Tudo estava amarrado e bem preso, nada poderia ser arrastado pela tempestade. Somente então o fazendeiro entendeu o que seu empregado quis dizer sobre "dormir enquanto o vento soprava". Aquele não era apenas um bom trabalhador, era bem melhor do que o fazendeiro imaginava".
 
Existem trabalhadores que fazem seu trabalho de maneira correta e honesta, mas existem alguns poucos que fazem ainda mais do que é esperado deles. O mesmo vale na vida, pois muitos se esforçam para alcançar seu potencial espiritual, mas há aqueles que conseguem se superar e ultrapassar seus próprios limites. 

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Nesta semana lemos a Parashá Vayechi (literalmente "E viveu"), que conta sobre a morte do nosso último patriarca, Yaacov Avinu. Ele viveu seus últimos anos no Egito, após o reencontro com seu filho Yossef. Antes de falecer, Yaacov falou suas últimas palavras para cada um de seus filhos. Alguns receberam Brachót (Bênçãos), enquanto outros foram repreendidos por algum ato errado ou por algum traço de caráter negativo. Mas talvez a Brachá que mais chama a atenção é a que Yaacov deu a Efraim e Menashé, seus netos, filhos de Yossef. Assim Yaacov disse para eles: "Israel (o povo judeu) será abençoado através de vocês, dizendo: 'Que D'us possa fazer de você como Efraim e Menashé' " (Bereshit 48:20). Esta Brachá de Yaacov é utilizada na noite de Shabat e na véspera de Yom Kipur, quando os pais abençoam seus filhos com estas palavras.
 
Porém, esta Brachá de Yaacov desperta um enorme questionamento. Sobre personagens incríveis como Avraham, Ytzchak, Yaacov e Moshé, a Torá se alongou bastante, descrevendo os enormes testes que eles venceram na vida e os traços de caráter desenvolvidos por cada um deles. Já em relação a Efraim e Menashé, a Torá não conta absolutamente nada sobre suas vidas e sobre seus traços de caráter. Então, entre todas as personalidades da Torá e entre todos os personagens ilustres da história do povo judeu, por que justamente Efraim e Menashé foram os escolhidos para serem eternos modelos para os filhos do povo judeu? O que Yaacov percebeu de tão especial neles?
 
Explica o Rav Shmuel Hoiminer zt"l (Bielorússia, 1913 - Israel, 1977) que os filhos e netos de Yaacov estiveram sempre perto dele, recebendo uma forte influência espiritual de crescimento e temor a D'us. Quando Yaacov voltou para Israel, saindo da casa de Lavan, seus filhos e netos puderam também estar perto de Ytzchak, um incrível modelo de santidade. Por muitos anos eles puderam viver na Terra de Israel, uma terra sagrada, se dedicando ao estudo da Torá.
 
Mas não foi assim com Efraim e Menashé. Diferente dos outros filhos e netos de Yaacov, eles nasceram e cresceram no Egito, uma terra estranha e imersa em impureza espiritual. Eles estavam distantes da sagrada Terra de Israel e da influência positiva dos patriarcas. Além disso, como Yossef era o vice-rei do Egito, um homem extremamente poderoso, em sua casa entravam e saíam constantemente ministros, magos e pessoas importantes. Efraim e Menashé cresceram rodeados de riqueza, poder e luxúria.
 
O que se poderia esperar da educação de Efraim e Menashé? O normal seria eles terem se tornado crianças mimadas, acostumadas ao luxo e à ostentação. Rodeados pelas idolatrias e promiscuidades egípcias, dificilmente eles conseguiriam manter a retidão e o temor a D'us. Yaacov, quando escutou que seu filho Yossef havia passado 22 anos no Egito, achou que ele já havia morrido espiritualmente. Porém, quando Yaacov chegou ao Egito, ficou impressionado ao perceber que Efraim e Menashé não haviam sido afetados pela impureza egípcia e nem por todo o materialismo que os cercava. Eles não admiravam o grande império egípcio e não haviam aprendido nenhum dos seus costumes e condutas. Eles haviam sido educados no colo de Yossef, com um incrível temor a D'us, apesar de todas as dificuldades. Certamente não havia sido um caminho repleto de rosas. Sem dúvida eles passaram por muitos testes e se depararam com dificuldades enormes em seu caminho, mas conseguiram vencer e superar todos os obstáculos, se blindando contra qualquer influência negativa egípcia.
 
Foi exatamente por este motivo que Yaacov escolheu Efraim e Menashé como modelos de todas as crianças do povo judeu. Pelo seu poder de superação e pela capacidade de vencer as dificuldades sem se deixar influenciar pelos maus exemplos em volta. É uma Brachá importante para todo o povo judeu, em todas as épocas, mas principalmente quando estamos no exílio, cercados de ideias estranhas ao judaísmo e de más influências.
 
Porém, de acordo com o Rav Yaacov Wainberg zt"l (EUA, 1923 - 1999), há um entendimento mais profundo nesta Brachá de Yaacov. A esperança de todos os pais é conseguir ver seus filhos tendo sucesso na vida. E o que significa sucesso? É conseguir completar nosso potencial. Mas Efraim e Menashé fizeram mais do que isso. Eles ultrapassaram seu potencial, eles alcançaram mais do que Yossef esperava deles. As tribos de Israel foram formadas por cada um dos filhos de Yaacov. Porém, Efraim e Menashé, apesar de serem apenas netos de Yaacov, atingiram um status tão elevado quanto o dos filhos de Yaacov, a ponto de cada um deles ter se tornado uma tribo em Israel. Efraim e Menashé tinham seu lugar dentro do acampamento do povo judeu no deserto e receberam suas porções na Terra de Israel, além de várias outras implicações. Tudo isso foi uma consequência de Yaacov, com sua Brachá, ter elevado Efraim e Menashé ao mesmo nível das outras tribos. E foi justamente esta a Brachá que Yaacov quis dar para todo o povo judeu: que não apenas possamos cumprir o nosso objetivo na vida, mas que possamos ultrapassá-lo, como fizeram Efraim e Menashé.
 
Infelizmente vivemos muito longe desta realidade. Não apenas não ultrapassamos nossas expectativas espirituais, mas acabamos nem mesmo as alcançando. De acordo com o Zohar, uma das principais fontes místicas judaicas, a alma da pessoa, alguns instantes antes do seu falecimento, dá um grito que pode ser escutado de um extremo do mundo ao outro extremo. O que é este grito, que pode ser ouvido em todos os mundos espirituais? No momento em que a pessoa está pronta para sair deste mundo, D'us mostra para ela uma imagem do que ela deveria ter alcançado durante sua estadia temporária no mundo material. A alma fica desesperada ao perceber a enorme diferença que há entre o que ela deveria ter alcançado e o que ela realmente alcançou. Neste grito amargo, que ecoa em todo o universo, é como se a alma estivesse dizendo: "Pobre de mim, que não cheguei nem perto do meu potencial!".

Por isso, devemos nos inspirar em Efraim e Menashé. Em primeiro lugar, saber que nenhum sucesso espiritual vem sem esforço. E em segundo lugar, lembrar que devemos almejar em nossas vidas alcançar até mais do que o nosso potencial. Se nos esforçarmos muito neste mundo, como fizeram Efraim e Menashé, e não desistirmos diante das dificuldades, poderemos "dormir tranquilamente enquanto os ventos sopram".

SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm

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quinta-feira, 16 de março de 2017

NÃO SEJA PRECIPITADO - SHABAT SHALOM M@IL - PARASHÁ KI TISSÁ 5777

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NÃO SEJA PRECIPITADO - PARASHÁ KI TISSÁ 5777 (17 de março de 2017)

"Rubens chegou cedo à sinagoga na manhã de Shabat. Ele estava apenas de passagem por aquela pequena cidade e era a primeira vez que ia àquela sinagoga. A reza ia bem até que chegou o momento da leitura da Torá, quando Rubens começou a achar tudo muito estranho. O Cohen e o Levi chamados para as duas primeiras leituras foram escolhidos entre as pessoas que se sentavam no fundo da sinagoga. Para as próximas três leituras foram escolhidos frequentadores que se sentavam na parte direita da sinagoga, enquanto para as últimas duas leituras foram escolhidos frequentadores que se sentavam na parte esquerda da sinagoga.
 
Rubens ficou muito irritado com o Gabai (pessoa responsável pela escolha das pessoas chamadas para cada leitura da Torá), pois não fazia sentido a ordem na qual ele havia escolhido as pessoas. Por que o Cohen e o Levi chamados eram pessoas do fundo da sinagoga e não pessoas que se sentavam na frente? E por que os outros três chamados foram da direita e não da esquerda? E por que os dois últimos foram da esquerda e não do fundo? Ele estava tão incomodado que começou a fazer suas reclamações em voz alta, incomodando os outros frequentadores. Então um senhor idoso muito sábio chegou perto dele e disse:
 
- Senhor, me desculpe, mas você veio nesta sinagoga apenas um único Shabat e já se acha no direito de reclamar da ordem na qual as pessoas foram chamadas na Torá? Se você estivesse aqui há alguns meses, acompanhando semana a semana o funcionamento da sinagoga, eu entenderia suas reclamações, mas não tem sentido você reclamar tendo pisado aqui apenas uma única vez! Se você tivesse vindo nas semanas anteriores, você teria entendido que a escolha segue uma ordem correta e bem planejada. Por exemplo, na semana passada já haviam dado a honra ao Cohen e ao Levi que se sentam na parte da frente da sinagoga e, por isso, desta vez foi chamado alguém da parte de trás. Os outros três chamados foram escolhidos da direita pois, na semana passada, os escolhidos haviam sido da parte da frente da sinagoga. E assim acontece todas as semanas, as pessoas que foram chamadas na semana anterior são puladas para dar oportunidade àquelas que ainda não tiveram o mérito de serem chamadas na Torá.
 
- O problema não está na ordem na qual as pessoas foram chamadas - concluiu o senhor idoso - O problema está na sua falta de paciência, no seu equívoco de achar que em apenas um único Shabat você já sabe o suficiente para criticar o Gabai. Na sua impaciência, você não conseguiu entender que ele leva em consideração muitos dados e detalhes para fazer a escolha da maneira mais justa possível, dando a devida honra a todos os frequentadores. 

Reuven se sentiu envergonhado por sua reclamação impetuosa. Daquele dia em diante, ele tentou ser mais paciente e não julgar mais nenhuma situação na vida de forma precipitada".  
 
Explica o Rav Israel Meir HaCohen zt"l (Bielorússia, 1838 - Polônia, 1933), mais conhecido como Chafetz Chaim, que nos comportamos exatamente da mesma maneira. Em poucos anos de vida neste mundo e com nosso intelecto completamente limitado, nos achamos no direito de questionar e criticar os atos perfeitos de D'us.

Nesta semana lemos a Parashá Ki Tissá (literalmente "Quando fizer o levantamento"), que descreve o terrível erro do bezerro de ouro. O povo judeu, ao se desesperar com o atraso de Moshé em descer do Monte Sinai, construiu um bezerro de ouro para que fosse, no lugar de Moshé, um novo intermediário entre o povo e D'us. Isto foi considerado um erro muito grave, a ponto de D'us decidir destruir todo o povo judeu e reiniciar um novo povo a partir de Moshé. Depois de muitas súplicas de Moshé, D'us decidiu revogar Seu decreto e perdoar o povo. D'us então chamou Moshé mais uma vez ao Monte Sinai e ensinou a ele os "13 Atributos de Misericórdia", para que o povo judeu utilizasse todas as vezes em que estivesse em situações delicadas e necessitando de Misericórdia Divina. Como Moshé entendeu que aquele era um momento especial de "Graça Divina", ele aproveitou para fazer um pedido especial para D'us: "Por favor, me mostre Seus caminhos" (Shemot 33:13). Porém, o que significou este pedido de Moshé?
 
Explica o Talmud (Brachót 7a) que Moshé estava fazendo a D'us uma pergunta que há milênios incomoda a humanidade: "Por que há pessoas boas que tem coisas ruins na vida e pessoas ruins que tem coisas boas na vida?". Em outras palavras, se D'us é bondoso e misericordioso, esperaríamos que as boas pessoas tivessem apenas alegrias e prazeres, enquanto as pessoas ruins tivessem apenas sofrimentos e tristezas. Porém, ao olharmos para o mundo, percebemos que muitas vezes o que ocorre é justamente o contrário. Vemos pessoas boas passando por muitos sofrimentos, enquanto pessoas ruins aproveitam a vida sem preocupações. Aparentemente estas situações contradizem a lógica humana e parecem negar a bondade de D'us.
 
Mas é permitido fazer este tipo de questionamento a D'us? Tudo depende da nossa intenção. O pedido de Moshé não se tratava de um questionamento em relação à bondade e a perfeição dos atos de D'us. Ele tinha uma Emuná (fé) completa e a certeza absoluta em seu coração de que tudo o que D'us faz é para o bem. Porém, Moshé queria um pouco mais do que esta certeza no coração. Ele queria que D'us mostrasse, de maneira lógica e racional, quais são os cálculos levados em consideração em cada decreto. Ele queria entender o que está por trás das situações nas quais a lógica humana não consegue entender a bondade de D'us.
 
Porém, precisamos tomar muito cuidado para não questionar "Por que boas pessoas sofrem e pessoas ruins tem tranquilidade na vida?" com intenções não tão puras quanto as de Moshé, pois algumas vezes acabamos realmente questionando a bondade de D'us. Normalmente isto acontece quando estamos passando por situações de sofrimento ou quando ficamos inconformados com situações nas quais pessoas ruins parecem estar se dando bem, apesar de estarem agindo de forma desonesta. Portanto, o primeiro passo é entender que estes questionamentos são provenientes das nossas limitações e da nossa falta de Emuná (fé). Somos muito imediatistas e acabamos decidindo as coisas de forma precipitada.
 
Quando questionamos "Por que coisas ruins acontecem com boas pessoas?", o que é considerado algo bom e o que é considerado algo ruim? Por exemplo, ganhar na loteria é necessariamente algo bom? Muitos ganhadores de loteria descrevem que suas vidas se transformaram em verdadeiros infernos depois de receberem quantias muito grandes de dinheiro. E sentir dor é necessariamente algo ruim? Existe uma doença chamada "Síndrome de Riley-Day", na qual a pessoa não tem sensibilidade à dor. Em uma análise superficial, parece um paraíso viver sem dor, mas normalmente quem sofre desta doença morre jovem, de maneiras até banais. Quando encostamos sem querer a mão no fogo, a dor aciona imediatamente nosso sistema nervoso e um ato reflexo nos faz tirar a mão do fogo quase imediatamente, evitando consequências mais graves. Porém, pessoas com esta síndrome somente percebem que a mão estava sobre o fogo quando grande parte do corpo já está completamente queimada.
 
Isto significa que somos muito precipitados quando questionamos D'us. Vivemos neste mundo por apenas poucos momentos e mesmo assim queremos respostas para todos os nossos questionamentos. Por que esta pessoa nasceu rica enquanto aquela outra pessoa nasceu pobre? Por que esta pessoa é saudável enquanto aquela outra pessoa é doente? Se a pessoa tivesse vivido centenas de anos, teria visto a história completa. Por exemplo, teria visto que aquele rico em outra vida foi um pobre, enquanto aquele pobre foi um rico. Cada um deles havia passado por um tipo específico de teste, sendo que um precisou vencer o teste da riqueza, de não se tornar mesquinho, egoísta e desconectado de D'us, enquanto o outro precisou vencer o teste da pobreza, de não questionar os caminhos de D'us e não chegar ao nível de roubar. Porém, depois dos dois vencerem seus testes em vidas anteriores, a situação foi invertida, para que aquele que venceu o teste da riqueza possa vencer o teste da pobreza e vice-versa.
 
Pelo fato do tempo de vida do ser humano ser tão curto, estamos sempre vendo a história de maneira muito limitada, sem conseguir enxergar as coisas de forma completa. Podemos chamar este fenômeno de "síndrome do buraco da fechadura", pois se assemelha a uma pessoa que quer entender tudo o que acontece dentro de uma casa, com toda a sua dinâmica complexa, apenas observando por alguns instantes através do buraco da fechadura. Enquanto a pessoa não abrir a porta para enxergar o quadro completo, é óbvio que ela estará sempre chegando a conclusões precipitadas, sem o mínimo de dados para tomar decisões racionais e equilibradas. Vemos o mundo de forma limitada e, portanto, distorcida, mas pensamos que é a realidade. E isto se conecta com o outro assunto da Parashá, que foi a construção do bezerro de ouro. A fonte deste erro tão grave foi justamente a precipitação do povo judeu, a pressa de querer entender tudo em um único instante, a falta de Emuná de que tudo o que D'us faz é para o bem.
 
David Hamelech também nos ensinou este conceito: "Cântico dos degraus: Quando D'us trouxer de volta a Tzion os retornados, seremos como sonhadores. Então nossas bocas se encherão de riso e nossas línguas de alegria" (Salmos 126:1,2). O que significa "seremos como sonhadores"? Na época da vinda do Mashiach, quando D'us se revelar e "acender a luz" deste mundo de tanta escuridão, perceberemos que tudo não passou de uma ilusão de ótica, apenas para nos dar livre arbítrio. Enxergaremos o quadro completo e nos alegraremos de verdade, a alegria imensa de entender os motivos pelos quais passamos por todas as dificuldades e sofrimentos na vida. Será a alegria de finalmente encontrar a resposta de "Por que pessoas boas sofrem enquanto pessoas ruins tem sucesso na vida?".
 
Quando D'us faz decretos, Ele leva em consideração muitos dados. Por exemplo, nossos atos durante vidas passadas, nosso objetivo nesta vida e o objetivo da humanidade como um todo. Diante de D'us está o passado, o presente e o futuro. Portanto, somente Ele sabe de verdade o que é o melhor para nós. Além disso, todos os nossos atos nesta vida são levados em consideração, pois nos esquecemos de muitas coisas que fizemos, mas D'us nunca se esquece de nada. Por isso, precisamos ter Emuná e a certeza de que tudo é para o bem e que tudo é decretado através de cálculos precisos e corretos. 

"Se agora nós entendermos que não podemos entender tudo, então teremos entendido tudo"

SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm

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HORÁRIO DE ACENDIMENTO DAS VELAS DE SHABAT - PARASHÁ KI TISSÁ 5777:

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ULTRAPASSANDO SEU POTENCIAL - PARASHÁ VAYECHI 5777 (13 de janeiro de 2017)

"Um fazendeiro possuía terras ao longo do litoral. Ele constantemente anunciava estar precisando de empregados, mas a maioria das pessoas estava pouco disposta a trabalhar em sua fazenda, pois temia as terríveis tempestades que varriam aquela região, fazendo estragos nas construções e plantações. Procurando por novos empregados, o fazendeiro recebeu muitas recusas. Finalmente, um homem baixo e magro, de meia-idade, se mostrou interessado.
 
- Você é um bom lavrador? - perguntou o fazendeiro, desconfiado.
 
- Bem, eu posso dormir enquanto os ventos sopram - respondeu o pequeno homem.
 
Embora confuso com a resposta, o fazendeiro, desesperado por ajuda, o empregou. O pequeno homem trabalhou bem, mantendo-se ocupado do alvorecer até o anoitecer. O fazendeiro estava muito satisfeito com o trabalho de seu novo funcionário. Então, certa noite, um vento ruidoso veio anunciando uma forte tempestade que se aproximava. O fazendeiro pulou da cama, agarrou um lampião e correu até o alojamento do empregado. Sacudiu o pequeno homem e gritou:
 
- Levante rápido! Uma tempestade está chegando! Amarre as coisas antes que tudo seja arrastado!
 
O pequeno homem virou-se na cama e disse tranquilamente:
 
- Não, senhor. Eu lhe falei que posso dormir enquanto os ventos sopram.
 
Dizendo isso, deitou-se para o outro lado e voltou a dormir. Enfurecido pela resposta descarada, o fazendeiro quis despedi-lo imediatamente, mas se apressou em sair para preparar tudo antes da tempestade. Trataria depois daquele empregado preguiçoso. Porém, para seu assombro, ele descobriu que todos os montes de feno já tinham sido cobertos com lonas firmemente presas ao solo. As vacas estavam bem protegidas no celeiro, os frangos estavam bem guardados nos viveiros, as portas estavam muito bem travadas e as janelas estavam bem fechadas e seguras. Tudo estava amarrado e bem preso, nada poderia ser arrastado pela tempestade. Somente então o fazendeiro entendeu o que seu empregado quis dizer sobre "dormir enquanto o vento soprava". Aquele não era apenas um bom trabalhador, era bem melhor do que o fazendeiro imaginava".
 
Existem trabalhadores que fazem seu trabalho de maneira correta e honesta, mas existem alguns poucos que fazem ainda mais do que é esperado deles. O mesmo vale na vida, pois muitos se esforçam para alcançar seu potencial espiritual, mas há aqueles que conseguem se superar e ultrapassar seus próprios limites. 

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Nesta semana lemos a Parashá Vayechi (literalmente "E viveu"), que conta sobre a morte do nosso último patriarca, Yaacov Avinu. Ele viveu seus últimos anos no Egito, após o reencontro com seu filho Yossef. Antes de falecer, Yaacov falou suas últimas palavras para cada um de seus filhos. Alguns receberam Brachót (Bênçãos), enquanto outros foram repreendidos por algum ato errado ou por algum traço de caráter negativo. Mas talvez a Brachá que mais chama a atenção é a que Yaacov deu a Efraim e Menashé, seus netos, filhos de Yossef. Assim Yaacov disse para eles: "Israel (o povo judeu) será abençoado através de vocês, dizendo: 'Que D'us possa fazer de você como Efraim e Menashé' " (Bereshit 48:20). Esta Brachá de Yaacov é utilizada na noite de Shabat e na véspera de Yom Kipur, quando os pais abençoam seus filhos com estas palavras.
 
Porém, esta Brachá de Yaacov desperta um enorme questionamento. Sobre personagens incríveis como Avraham, Ytzchak, Yaacov e Moshé, a Torá se alongou bastante, descrevendo os enormes testes que eles venceram na vida e os traços de caráter desenvolvidos por cada um deles. Já em relação a Efraim e Menashé, a Torá não conta absolutamente nada sobre suas vidas e sobre seus traços de caráter. Então, entre todas as personalidades da Torá e entre todos os personagens ilustres da história do povo judeu, por que justamente Efraim e Menashé foram os escolhidos para serem eternos modelos para os filhos do povo judeu? O que Yaacov percebeu de tão especial neles?
 
Explica o Rav Shmuel Hoiminer zt"l (Bielorússia, 1913 - Israel, 1977) que os filhos e netos de Yaacov estiveram sempre perto dele, recebendo uma forte influência espiritual de crescimento e temor a D'us. Quando Yaacov voltou para Israel, saindo da casa de Lavan, seus filhos e netos puderam também estar perto de Ytzchak, um incrível modelo de santidade. Por muitos anos eles puderam viver na Terra de Israel, uma terra sagrada, se dedicando ao estudo da Torá.
 
Mas não foi assim com Efraim e Menashé. Diferente dos outros filhos e netos de Yaacov, eles nasceram e cresceram no Egito, uma terra estranha e imersa em impureza espiritual. Eles estavam distantes da sagrada Terra de Israel e da influência positiva dos patriarcas. Além disso, como Yossef era o vice-rei do Egito, um homem extremamente poderoso, em sua casa entravam e saíam constantemente ministros, magos e pessoas importantes. Efraim e Menashé cresceram rodeados de riqueza, poder e luxúria.
 
O que se poderia esperar da educação de Efraim e Menashé? O normal seria eles terem se tornado crianças mimadas, acostumadas ao luxo e à ostentação. Rodeados pelas idolatrias e promiscuidades egípcias, dificilmente eles conseguiriam manter a retidão e o temor a D'us. Yaacov, quando escutou que seu filho Yossef havia passado 22 anos no Egito, achou que ele já havia morrido espiritualmente. Porém, quando Yaacov chegou ao Egito, ficou impressionado ao perceber que Efraim e Menashé não haviam sido afetados pela impureza egípcia e nem por todo o materialismo que os cercava. Eles não admiravam o grande império egípcio e não haviam aprendido nenhum dos seus costumes e condutas. Eles haviam sido educados no colo de Yossef, com um incrível temor a D'us, apesar de todas as dificuldades. Certamente não havia sido um caminho repleto de rosas. Sem dúvida eles passaram por muitos testes e se depararam com dificuldades enormes em seu caminho, mas conseguiram vencer e superar todos os obstáculos, se blindando contra qualquer influência negativa egípcia.
 
Foi exatamente por este motivo que Yaacov escolheu Efraim e Menashé como modelos de todas as crianças do povo judeu. Pelo seu poder de superação e pela capacidade de vencer as dificuldades sem se deixar influenciar pelos maus exemplos em volta. É uma Brachá importante para todo o povo judeu, em todas as épocas, mas principalmente quando estamos no exílio, cercados de ideias estranhas ao judaísmo e de más influências.
 
Porém, de acordo com o Rav Yaacov Wainberg zt"l (EUA, 1923 - 1999), há um entendimento mais profundo nesta Brachá de Yaacov. A esperança de todos os pais é conseguir ver seus filhos tendo sucesso na vida. E o que significa sucesso? É conseguir completar nosso potencial. Mas Efraim e Menashé fizeram mais do que isso. Eles ultrapassaram seu potencial, eles alcançaram mais do que Yossef esperava deles. As tribos de Israel foram formadas por cada um dos filhos de Yaacov. Porém, Efraim e Menashé, apesar de serem apenas netos de Yaacov, atingiram um status tão elevado quanto o dos filhos de Yaacov, a ponto de cada um deles ter se tornado uma tribo em Israel. Efraim e Menashé tinham seu lugar dentro do acampamento do povo judeu no deserto e receberam suas porções na Terra de Israel, além de várias outras implicações. Tudo isso foi uma consequência de Yaacov, com sua Brachá, ter elevado Efraim e Menashé ao mesmo nível das outras tribos. E foi justamente esta a Brachá que Yaacov quis dar para todo o povo judeu: que não apenas possamos cumprir o nosso objetivo na vida, mas que possamos ultrapassá-lo, como fizeram Efraim e Menashé.
 
Infelizmente vivemos muito longe desta realidade. Não apenas não ultrapassamos nossas expectativas espirituais, mas acabamos nem mesmo as alcançando. De acordo com o Zohar, uma das principais fontes místicas judaicas, a alma da pessoa, alguns instantes antes do seu falecimento, dá um grito que pode ser escutado de um extremo do mundo ao outro extremo. O que é este grito, que pode ser ouvido em todos os mundos espirituais? No momento em que a pessoa está pronta para sair deste mundo, D'us mostra para ela uma imagem do que ela deveria ter alcançado durante sua estadia temporária no mundo material. A alma fica desesperada ao perceber a enorme diferença que há entre o que ela deveria ter alcançado e o que ela realmente alcançou. Neste grito amargo, que ecoa em todo o universo, é como se a alma estivesse dizendo: "Pobre de mim, que não cheguei nem perto do meu potencial!".

Por isso, devemos nos inspirar em Efraim e Menashé. Em primeiro lugar, saber que nenhum sucesso espiritual vem sem esforço. E em segundo lugar, lembrar que devemos almejar em nossas vidas alcançar até mais do que o nosso potencial. Se nos esforçarmos muito neste mundo, como fizeram Efraim e Menashé, e não desistirmos diante das dificuldades, poderemos "dormir tranquilamente enquanto os ventos sopram".

SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm

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